Desfazendo o mito dos megapixels

Acontece com todos nós: o momento em que descobrimos que mais “megapixels” e melhores fotos não são necessariamente a mesma coisa. Se ver livre do errôneo “mito do megapixel” – o equivalente desta década do “mito dos megahertz” – pode levar um consumidor a uma crise existencial em miniatura.
A descrença, a princípio, dá lugar a uma espécie de auto-questionamento embaraçoso: “quer dizer que 15 megapixels não é três vezes melhor que 5 megapixels? O modelo deste ano não é melhor que o do ano passado? Gastei toda aquela grana “atualizando” meu equipamento… para nada?”.
O consumidor, em pânico, se vê então diante da escolha entre abandonar de vez os eletrônicos e se tornar um ludita, ou aprender sobre a tecnologia por trás das câmeras e tomar as rédeas de suas decisões de compra.
Ao escolher o segundo caminho, ele logo se dá conta de que nem tudo está perdido. As novas gerações de câmeras digitais e filmadoras, que quase sempre tem “mais megapixels” ou resoluções mais altas, ainda assim tendem a produzir excelentes imagens.
Mas há muito mais no sensor de uma câmera digital que a resolução. Entender o básico pode acabar lhe convencendo que, pelo menos neste ano, comprar o modelo do ano passado é uma ótima idéia.
De olho nos números certos
Num mar de especificações, uma das mais ignoradas é o tamanho, e não o número de pixels, do sensor de uma câmera. Sensores maiores geralmente levam a pixels maiores, o que resulta em algumas vantagens na hora de capturar uma imagem.
A mecânica disto tudo pode ser melhor compreendida imaginando o sensor de uma câmera digital como uma bandeja coberta de milhões (daí o “mega”) de pixels cilíndricos, como se fossem copos. Fótons (partículas de luz) passam através da lente da câmera e são “capturados” pelos copos na bandeja. Cada copo pode ser vermelho, verde ou azul (as três cores que formam a base para todas as outras). Quanto mais fótons um copo captura, mais brilhante é sua cor. Copos totalmente vazios são pretos, totalmente cheios são brancos.
Pixels (ou copos) maiores, com superfícies maiores, capturam mais fótons por segundo, o que na linguagem dos eletrônicos significa um “sinal mais forte”, e na linguagem das câmeras significa “menos ruído e cores mais limpas”. Pixels maiores também capturam mais fótons por exposição antes de encher, então são capazes de manter sua cor por mais tempo e não “esbranquecem” tão rapidamente quanto os pixels menores.
Como o tamanho do sensor nas câmeras compactas não aumentou muito, mas a quantidade de pixels sim, o único modo de conseguir isto é usando pixels menores. Por esta razão, geralmente não vale a pena pagar um extra pelo último “rei dos megapixels”, diz Phil Askey, editor do site dpreview.com, especializado em fotografia digital.
“Quando você vai além dos 7 ou 8 megapixels em uma câmera compacta, as lentes pequenas já não estão aguentando o tranco”, diz Askey. “E você está colocando tantos pixels em um sensor tão pequeno que o ruído começa a virar um problema de verdade. Começamos a nos preocupar com isso em 2006, mas de lá pra cá só piorou”.
A mesma coisa se aplica a câmeras DSLR (Digital Single-Lens Reflex). De fato, testes recentes conduzidos no site dpreview.com chegaram à conclusão de que fotos tiradas com a nova Canon EOS 50D (US$ 1.400), de 15 megapixels, “mostram visivelmente mais ruído de cor e de luminância”, e uma faixa dinâmica ligeiramente menor, que um modelo mais velho, a Canon EOS 40D (US$ 920).
Como uma forma de visualizar quão “densos” os sensores se tornaram, o site de Askey fornece informações sobre a densidade de pixels e tamanho do sensor de mais de 1.200 modelos de câmeras digitais. E embora Askey avise que os compradores não devem tomar decisões com base em um único número, estes dados podem ajudar a colocar suas opções em perspectiva, junto com análises mais detalhadas da qualidade de imagem.
Se você está à procura de uma DSLR semi-profissional (uma câmera para o consumidor doméstico mas com a qualidade e recursos de um modelo profissional) que minimize os problemas de ruído, dê uma olhada na Canon Rebel XSI (US$ 600), Canon 40D (US$ 920), Nikon D80 (US$ 640) e a Nikon D90 (US$ 1.000).
Estimulando seu lado profissional
Outra vantagem de um sensor grande é a habilidade de produzir imagens onde apenas uma pequena porção da cena está em foco, um efeito popular na fotografia profissional. Entender a fundo como isto funciona é coisa para quem tem diploma em física, mas no geral câmeras com sensores pequenos tendem a produzir imagens onde praticamente toda a cena parece estar em foco. Este é o principal motivo para que, em situações normais de fotografia, as imagens produzidas por câmeras domésticas pequenas e DSLRs sejam tão diferentes.
A má notícia é que você provavelmente vai precisar de uma DSLR para chegar à profundidade de campo “rasa” o suficiente para atingir o efeito desejado. A boa notícia é que você pode conseguir este visual profissional mesmo com as câmeras DSLR mais baratas, e elas costumam ser relativamente pequenas.
Se você insiste em uma câmera compacta, suas únicas opções são a Sigma DP-1 (US$ 700), que o colunista de tecnologia David Pogue elogiou pela qualidade de imagem, mas criticou em todos os outros quesitos, a nova Panasonic DMC-G1, sobre a qual Pogue teve opiniões similares, e a recém-anunciada, mas ainda não testada, Sigma DP-2.
Se você procura por uma câmera pequena que possa produzir imagens com pouca profundidade de campo, bons modelos incluem a Canon Rebel XS (cerca de US$ 150 com lente), Nikon D40/D40X (cerca de US$ 450 com lente) e a Olympus E-420 (US$ 460 com lente).
A habilidade ainda é importante
Embora alguns especialistas acreditem que o ritmo da inovação no mundo da fotografia digital diminuiu, é sempre bom lembrar que na tecnologia as regras de hoje são os anacronismos de amanhã. Mas não importa quando o próximo avanço na fotografia digital virá, o velho provérbio que diz que o fotógrafo é a parte mais importante de uma boa foto sempre será verdade.
Leve em conta o caso do premiado fotógrafo Alex Majoli, conhecido por fazer fotos de guerras e outras imagens dramáticas para publicações como a National Geographic e a Newsweek – usando câmeras digitais compactas.
Ou tenha em mente as palavras críticas de Ansel Adams: “a incrível facilidade com a qual podemos produzir uma imagem superficial frequentemente nos leva ao desastre criativo.”
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